
A correção de rotas políticas e estratégias no cenário internacional acionadas nos EUA, sob Donald Trump, interferem em políticas de educação, ciência e cultura. Afetam as composições intelectuais e institucionais, vigentes e por construir, no âmbito da cooperação educacional e científica, notadamente entre universidades e suas redes de atuação.
Em 2025, após 30 anos da morte de Florestan Fernandes, a compreensão dos universos sociais, das nações às disputas pela hegemonia mundial, comparece como desafio e tarefa constantes. Em vários momentos e manifestações o sociólogo registrou caminhos a seguir. São passagens e indícios desta preocupação, referidos e dispersos em textos de diferente natureza, nos quais abordou a chamada “globalização”.
Vale observar que as atenções de Florestan miravam, sobretudo, a desagregação do bloco soviético e a ascensão dos EUA como superpotência mundial. Os fatos são conhecidos e confirmaram inúmeras análises que a sua imaginação sociológica entreviu e revidou. É nas poucas menções sobre o conjunto de países que padeceram o colonialismo de Portugal que emitiu os sinais mais nítidos.
O rescaldo social da dominação e da exploração colonial e a violência da Guerra Fria logo emergiu nestes países, incluindo Portugal. Em cenário pós-apocalíptico, as ciências sociais viram-se confrontadas com suas próprias limitações, ante o desafio de compreender as diferentes totalidades históricas, em um novo vir a ser, ricamente contrastantes. Nos anos 1990, a comunidade de países de língua portuguesa foi saudada com prudência e entusiasmo.
Uma vez lançadas no universo social global, tais totalidades nacionais, continentais e intercontinentais, ofereciam oportunidades de invenção política e social criativas na concepção e no desenvolvimento de futuros rumos civilizacionais e no aproveitamento de potencialidades, até então, rejeitadas, sufocadas, oprimidas. Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, constituiriam uma comunidade?
O uso construtivo e coletivo da imaginação sociológica foi reclamado por Florestan Fernandes. O sociólogo apostava nela como via fecunda e segura para o livre trânsito de análises, debates, estudos e diálogos sobre problemas socioeconômicos, políticos e culturais, de fundo comum e aspirações igualmente conjuntas. O esforço intelectual neste auto decifrar abriria horizontes na renovação do pensamento sociológico e das mudanças sociais programadas no século XXI, construídas horizontal e coletivamente.
Os desafios da nova realidade mundial emergente exibiram os brotos e as ramificações para o desabrochar de sucessivas floradas nas ciências sociais. Entre elas a vertente nativa de língua portuguesa, as ciências sociais na Lusofonia. Solidariedade e cooperação intelectual ultrapassariam o empenho associado daquelas nações e demais vontades coletivas. Conteria em botão paradigmas de novas interações entre teoria e prática.
A reorientação de condutas e de sentidos na investigação em ciências sociais. O desdobramento alcançaria o perfil e a formação de profissionais, a ação institucional das universidades, o engajamento de estudantes, pesquisadores e professores na solução de problemas sociais comuns. Enfim, outras concepções de trabalho intelectual e técnico-científico, em sintonia com a liberdade e com a igualdade social.
O Brasil, aos poucos, vai retomando posições no cenário internacional e no âmbito das Nações Unidas. As imprecações de Florestan Fernandes nas tarefas intelectuais e políticas nas ciências sociais adquirem relevo e dimensões atuais. Iluminam distintas estratégias culturais em escala internacional e no estreitamento das relações com a Lusofonia. Estendem o foco até Macau, vibrando também as relações do Brasil com a China.
Coluna do pesquisador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista (UNESP)
Coluna do pesquisador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista (UNESP)