
Marília - Sou filha de uma mãe solo e a única de quatro filhos da periferia a chegar à universidade. Hoje, como jornalista, minha história é frequentemente usada como exemplo de superação neste mês da Consciência Negra.
Mas a realidade vai muito além da celebração e do “Novembro Marketing”. A verdadeira luta é diária, pela nossa identidade e, no bolso, por uma diferença de quase R$ 1.300 que define o abismo racial em Marília.
Mas, para mim, ela é a prova de um problema: por que ainda sou a exceção, e não a regra?
Enquanto jornalista e ativista em Marília, aprendi a cruzar minha biografia com as estatísticas. E os números da nossa cidade são um soco no estômago.
Dados recentes do Censo IBGE 2022 mostram que, em Marília, o abismo salarial tem cor. A renda média de uma pessoa branca em nossa cidade é de R$ 3.648,53. A de uma pessoa parda (onde se encontra a maioria da população negra local) é de R$ 2.359,68.
Não é uma estatística abstrata. É uma diferença de R$ 1.288,85 no fim do mês. A luta da Consciência Negra, em Marília, é a luta por quase R$ 1.300 que são sistematicamente negados à nossa população.
O Direito de Ser: Identidade e Estereótipo
Minha história não é apenas sobre estatística social, mas sobre identidade. Assumir minha ancestralidade e africanidade publicamente é um ato político. Sou neta de um avô materno preto retinto, filha de um pai também preto e de uma mãe parda. Eu, com a pele clara, me autodeclaro uma mulher preta.
E por que essa declaração é importante? Porque ela desafia a lógica dos estereótipos. O sociólogo Stuart Hall nos ensinou que o estereótipo é uma ferramenta de poder que tenta “fixar” e reduzir a identidade de um grupo a alguns traços simplistas. Para a população negra, os estereótipos são historicamente negativos ou limitados – o “preto retinto” como o único “negro de verdade”, ou o negro no lugar de serviço, nunca no de poder.
Minha existência como jornalista, de pele clara e ativista, quebra essa tentativa de “fixação”. A Consciência Negra, para mim, é também sobre isso: o direito àcomplexidade da nossa identidade, para além dos estereótipos que tentam nos definir.
O diploma não basta
O primeiro argumento que ouvi foi que eu precisava “chegar lá”. O diploma universitário seria o passaporte para a igualdade. Infelizmente, os dados provam que o racismo estrutural impõe uma nova barreira assim que cruzamos a porta da formatura.
No Brasil, mesmo quando pessoas negras alcançam o ensino superior, ainda ganham, em média, 32% a menos que os demais trabalhadores com o mesmo nível de ensino. O teto de vidro é real: dados do DIEESE (2024) apontam que apenas 1 em cada 48 homens negros ocupados chega a um cargo de liderança, contra 1 em 18 homens brancos.
E se você for uma mulher negra, o abismo é duplo. No estado de São Paulo, nós, mulheres negras, recebemos em média menos da metade (cerca de 47%) do que ganham os homens não negros. Vinda de uma casa chefiada por uma mãe solo, sei exatamente o que esse número significa na prática.
O “Novembro Marketing” e a Ação Real
Neste mês, veremos empresas mudando suas logomarcas e fazendo discursos emocionados sobre a Consciência Negra. É o que nós, ativistas, chamamos de “Novembro Marketing” ou “racismo de conveniência”: uma maquiagem que desaparece no dia 1º de dezembro, enquanto as estruturas de poder e os cargos de chefia permanecem brancos.
Mas como diferenciar o discurso da ação? Com metas.
Um exemplo é o Mover (Movimento pela Equidade Racial), uma coalizão de mais de 50 grandes empresas que se propôs a transformar a realidade. O relatório de 2024 do movimento mostrou que é possível ir além do discurso: as empresas associadas geraram 2.016 novas posições de liderança para pessoas negras e mais de 281 mil oportunidades (entre contratações e vagas de formação) no último ano. Pessoas negras passaram a representar 39% dos cargos de liderança nessas empresas, um aumento de 5 pontos percentuais.
Isso não é filantropia. É estratégia. É entender que, enquanto houver um abismo de R$ 1.300 em Marília, a economia da cidade inteira perde.
A Luta é Local
Os números nacionais são importantes, mas a mudança acontece aqui. É por isso que, mesmo sendo jornalista, continuo meu ativismo em projetos sociais e participando de conselhos municipais para discutir políticas públicas.
Esta é a linha de frente. É em órgãos como o COMPIR (Conselho Municipal da Promoção da Igualdade Racial) que a nossa voz se une para fiscalizar e propor ações que transformem a realidade da nossa cidade.
A minha história como “exceção” só terá valor quando ela se tornar a regra. A verdadeira Consciência Negra não é celebrar a minha improvável chegada à redação. É lutar nos outros 364 dias do ano para garantir que cada pessoa negra em Marília tenha o direito e a oportunidade de construir sua própria história.
A luta é pelo diploma, sim, é pelo direito de assumir nossa identidade sem sermos estereotipados, e é, mais ainda, pelos R$ 1.288,85 que faltam no nosso bolso.
Jornalista e Publicitária com experiencia na área de Comunicação Empresarial. Apaixonada por Jornalismo Investigativo, Marketing de Performance e Ciência de Dados.
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