Colunista | Viviane Gonçalves

Giro Marília -Essa não é uma carta de amor.

Queria dizer que você me machucou muito, que foi desonesto comigo e, pior, com você mesmo.

Que não se deve brincar com pessoas e com os sentimentos delas, que a vida tem uma lei de plantio e colheita e que, querendo ou não, tudo isso ainda vai voltar para você.

Preciso dizer que você está muito perdido, tentei por diversas vezes dizer isso, mas você, com seu machismo, confundia zelo e amor com controle.

Você não é mais um garoto e precisa perceber que nem todo amigo é amigo, que tentar abafar o que sente, seja de qualquer modo, não vai resolver o problema, ele ainda estará aí.

Peço desculpas pelas incontáveis palavras utilizadas, sei que às vezes nem lia o que te enviava e outras tantas não entendia o que estava querendo dizer ali.

Necessito ser sincera, você precisa saber que é a causa de meu arrependimento, sempre, quando choro por tudo que desperdicei, volto àquele dia que nos conhecemos, se tivesse uma única oportunidade, pularia ele.

Não me venha com “ você precisa se apegar as coisas boas”, eu mais chorei do que ri nessa relação. Quantas vezes procurei você através de ligações ou mensagens não respondidas.

E quantas vezes você não preferiu uma conversa de bar com os amigos ou um churrasco regado a bebida a ficar comigo.

Ouvi tantas vezes de ti que eu era a pessoa que sempre seria a primeira em tudo, que meu papo era melhor, mas você sempre escolhia qualquer pessoa e me deixava de canto.

No entanto, confesso que lembrando todos esses pormenores, considero que seja um coitado, nunca assume nada por si mesmo, sempre precisa da aprovação de seus amigos, tentando fechar um buraco de uma infância sem presenças masculinas fortes.

Nem amor você conhece, atropela as pessoas que passam pelo seu caminho como um trator, suas vontades são imperativas e usa as pessoas como mero acessório.

Ah, você é tão tolo, perdeu tantas chances de ser feliz, de ter um abraço no final do dia, de assistir filme regado a pipoca e brigadeiro.

Agora sobraram cinzas de uma relação que foi quase monólogo, uma peça de um único ator.

Sei que amadurecimento não veio, tenho tido notícias suas, percebo como tenta tampar os buracos que te consomem.

Compreendo também que sou só uma na fila do pão, mais uma na fila do pão.

Pensei estar escrevendo essa carta para você, mas não. Essas palavras são para suas novas namoradas, ficantes, aquelas que você direciona suas juras de amor e promessas vazias.

Gostaria que tivessem me alertado sobre seus comportamentos doentios que adoecem outras pessoas. Mas tive que conhecer o desamor para saber, de fato, o que é amor.

Não lamento por você, lamento por mim, por desperdício de sentimentos tão puros e ricos, por um tempo em que não ouvi Bethânia ou pelos livros do Benedetti que não li porque estava angustiada com a não visualização de uma mensagem ou as várias ligações sem respostas.

Contudo, Bethânia e Benedetti estão à disposição para o meu deleite, meu amor para você não.

Esse amor você perdeu, amor é como oportunidade, se você não aproveita, outros aproveitarão por você.

Retomei a leitura de Benedetti, voltei ouvir Bethânia, e reaprendi com o poeta que mais que beijar, mais que dormir juntos, mais que nenhuma outra coisa, o amante precisa dar a mão, isso é amor.

Faltou sua mão e essa não é uma carta de amor.


Giro Marília -Viviane Gonçalves
Viviane Gonçalves
Cientista social formada pela Unesp- Marília, uma curiosa nos estudos que se referem às mulheres, adora literatura, poesias e filmes. Acredita que Adélia Prado tinha razão, mulher é mesmo desdobrável.

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