Colunista | Viviane Gonçalves

Giro Marília -Os brincos dos meus sonhos estão debaixo do meu travesseiro.

Lá vem mais uma quinta, mais um texto, mais uma tentativa de entendimento do que sou para mim mesma e para o mundo.

Essa atual conjuntura social, econômica e mundial, tem nos transformado.

Ressignificando hábitos, crenças, desejos, anseios, sonhos.

Por falar em sonhos, a vida, universo, sei lá, tem me questionado sobre os meus.

Tudo começou com uma conversa despretensiosa com um amigo, ele revelou que nos momentos de tédio e solidão faz projetos e sonha.

Lá vou eu, toda serelepe, linda, prosa e poesia para a terapia semanal.

Revelo sobre o cotidiano repetitivo de uma " isolante" (aquela que pratica o isolamento, neologismo, liberdade poética, escolha o nome aí) entre revelações de paqueras frustradas, exercícios cotidianos, o axé de todo dia, lá vem ela: Viviane, o que te bloqueou a ponto de não sonhar?

Em um segundo, talvez dois, minha memória faz uma retrospectiva que envergonharia a Rede Globo no final do ano.

A resposta não é simples, existem vários motivos. Mas o problema maior é: por que não consigo sonhar mais?

Ah, leva essa pra casa, Viviane, pense sobre isso, projetos, sonhos. Trouxe, coloquei embaixo do travesseiro, tal qual um brinco tirado à noite e esquecido.

Conversando com outra pessoa, ela, super feliz, contando sobre seus projetos, sonhos, perspectivas.

Vira o rosto, olha para mim, de forma séria e incisiva, arranca os brincos dos sonhos escondidos debaixo do meu travesseiro e pergunta: " Quais são seus sonhos?"

Não tenho, respondo envergonhada, sei que as pessoas não levam à sério quem não sonha.

Sonha em escrever um livro? Não. Em viajar para algum lugar? Não.

E como se vive sem sonhos? E eu sei lá! Estou chegando aos 38 sem saber responder.

Sou tal qual o dependente químico que vive um dia de cada vez.

Não comemoro nada porque não sonho com nada. Talvez desista da minha leitura por considerá-la desencantada.

Como se pode levar a sério uma pessoa que não sonha?

Não leve! Talvez eu seja essa concretude mesmo ou o sonho de alguém e por viver o encanto do outro, sigo desencantada do meu.

Vocês que têm projetos, sonhos, estratégias são mais felizes.

Considero fascinante visualizar uma chegada. Só ando nas estradas e caminhos.

Sem ponto de chegada, só caminhante.

Os brincos  dos meus sonhos estão debaixo do  meu travesseiro.


Giro Marília -Viviane Gonçalves
Viviane Gonçalves
Cientista social formada pela Unesp- Marília, uma curiosa nos estudos que se referem às mulheres, adora literatura, poesias e filmes. Acredita que Adélia Prado tinha razão, mulher é mesmo desdobrável.

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