Colunista | LIMPO E TRANSPARENTE - Paulo Henrique Martinez

Giro Marília - História mundial na BNCC

A construção da Base Nacional Curricular Comum (BNCC) da Educação Básica tem gerado debates e indagações quanto aos componentes curriculares nas disciplinas escolares. Inquieta a imaginação de administradores, educadores, professores e estudantes. A consulta pública possibilita ampla participação de profissionais, pais e alunos, aproximando o debate educacional do conjunto da sociedade.

A consulta pública já representa uma conquista social. Um ato educativo de grande alcance e significado político. O componente curricular da disciplina de História ganhou destaque em encruzilhadas que vão além de opções ideológicas e de dúvidas quanto ao conteúdo apropriado.

A polêmica traduz a própria dinâmica social do Brasil no século XXI. O conhecimento histórico segue de perto a movimentação das camadas sociais que ganharam realce na vida brasileira nas três últimas décadas. O acesso ao mercado de consumo, emprego e renda deram visibilidade pública a segmentos secularmente preteridos no dia a dia nacional.

O abalo do eurocentrismo, da ‘civilização nos trópicos’, da Paris na América, torna-se inevitável. O ingresso maciço de novos conhecimentos sobre as sociedades indígenas, africanas e a diáspora africana no Brasil, resultantes da recente e qualificada pesquisa histórica, é indicativo da pertinência, atualidade e necessidade de sua ampla socialização na Educação Básica.

O deslocamento de outros componentes curriculares, notadamente da história europeia, despertou reações igualmente pertinentes. O Ministério da Educação noticiou que dará mais espaço à história mundial na próxima versão da BNCC.

Um novo equilíbrio entre história geral e do Brasil no currículo escolar e no ensino de História, porém, não inclui a nova história mundial. A compreensão da formação do povo brasileiro e da construção da cidadania convergem no estudo do imaginário e do Estado nacional no Brasil.

As interações do Brasil com o mundo, a sua projeção exterior, participação no mercado mundial e no sistema das Nações Unidas não são suficientes para entender que a história mundial foi admitida na BNCC.

A história das nações procura evidenciar a identidade - étnica, religiosa, cultural e, sobretudo, política - e legitimar a unidade histórica do Estado e da organização da sociedade. Nesta perspectiva, ela remonta à modernidade europeia anunciada pela expansão marítima e a colonização moderna.

A história mundial possui uma escala própria de observação espaço-temporal, a dos  fenômenos globais. Esta é sua unidade de investigação e de análise. Nas últimas décadas, eventos desta dimensão respondem por novas e crescentes experiências humanas, transfronteiriças e massivas.

Epidemias, meio ambiente, mídia, direitos humanos, migrações, selam destinos coletivos e informam novas percepções e representações do passado e do presente, dão corpo e alma a uma nova consciência histórica.

Esta não é a história do Ocidente ou da Europa, apenas, é história da presença humana no planeta.

A história mundial não está na BNCC.

Terá lugar na versão prevista para maio deste ano?


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LIMPO E TRANSPARENTE - Paulo Henrique Martinez
Professor no Departamento de História da Universidade Estadual Paulista/Campus de Assis.

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