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Giro Marília -Inteligência Artificial e as consequências na empregabilidade no Brasil

As profundas transformações que a sociedade vem sofrendo diante do desenvolvimento da Inteligência Artificial que, de modo simplista, é a utilização das ferramentas desenvolvidas pela tecnologia da informação em todos os setores da sociedade, como indústria, comércio, agropecuária e serviços. Essas transformações vêm gerando indícios que o conhecimento das tecnologias e formação nesta área garantem a empregabilidade do cidadão, uma vez que a preocupação gerada pelo avanço tecnológico é o crescimento econômico sustentável.

Diante deste exposto, é feito o questionamento de como o Estado pode intervir para garantir a empregabilidade sem atravancar o avanço tecnológico. Para melhor compreensão do tema, faz-se necessária uma exposição sobre o que é inteligência artificial e seu histórico; o papel do governo no desenvolvimento das áreas sociais e como fazer a inclusão do cidadão neste novo cenário de empregabilidade.

A Inteligência Artificial (IA) tem sido bastante utilizada em vários campos e aplicações. A IA tem como objetivo buscar métodos ou sistemas computacionais que possuam ou suplementem as tarefas que demandam inteligência humana, como as de aprender, resolver problemas complexos, e identificar padrões em imagens ou conjunto de dados.

No início das pesquisas sobre o tema, os estudos se resumiam em algumas pesquisas militares e na resolução de problemas teóricos e com pouco valor prático para a sociedade em geral. Foi a partir da década de 1970, quando a área contemplou muitas pesquisas e recebeu grande investimento, que houve uma maior disseminação de técnicas baseadas em IA para a solução de problemas reais.

Atualmente, a área de IA recebe grandes investimentos em vários campos de pesquisa, comércio e indústria, nas aplicações voltadas para o auxílio a capacidade humana de resolução de problemas e, ainda, na substituição de mão de obra em tarefas repetitivas em inúmeras atividades operacionais.

Atualmente, com o progressivo aumento da complexidade dos problemas a serem tratados pelos sistemas computacionais e do volume de dados gerados por todos os ramos, inclusive por usuários comuns, ficou clara a imprescindibilidade de recursos computacionais cada vez mais sofisticados e atuando de forma autônoma, reduzindo a intervenção humana e a dependência de especialistas. Há inúmeras aplicações de IA em vários setores da economia, indústria e comércio, como:

Reconhecimento de voz: atendimento telefônico automático, comandos a equipamentos domésticos e veículos pela voz.

Detecção de fraudes financeiras: uso indevido de cartões de crédito.

Diagnóstico médico e em exames de imagem: diagnósticos em exames de imagens e padrões genéticos.

Jogos: maior realismo e melhor jogabilidade em jogos eletrônicos.

Robótica: veículos autônomos, aspiradores robóticos, máquinas em linhas de montagem e robôs utilizados para ampliar a capacidade ou suprir a deficiência humana.

Tradução automática: tradutores online e em smartphones.

Ainda que os filmes de ficção científica projetem cenários catastróficos quando tratam do assunto, aspectos éticos e riscos de se desenvolver a IA têm sido debatidos com muita seriedade.

O desenvolvimento dessa nova tecnologia trouxe alguns problemas e questões que antes não existiam: As pessoas podem perder seus empregos? As pessoas podem perder seu sentido de identidade? Sistemas de IA podem ser utilizados para fins indesejáveis e provocar o fim da raça humana? Dentre outros.

Estudos demonstram que, embora algumas ameaças sejam improváveis, uma ameaça em particular é digna de melhor exame: as máquinas ultra inteligentes podem levar a um futuro que é muito diferente de hoje e poderemos não gostar dele. Essas avaliações conduzem à dedução de que é necessário considerar as consequências possíveis das pesquisas em IA.

Algumas interrogações são inevitáveis e remetem-se à manutenção do emprego e suscita a reflexão em torno da grande dependência que a economia industrial moderna tem pelos computadores e sistemas computacionais. Todas as transações financeiras dependem da tecnologia de informação. As vésperas do ano 2000 evidenciaram essa dependência quando a iminência do ``bug do milênio'' deixou temerosas as instituições financeiras de todo o mundo.

De fato, trabalhadores são demitidos por conta da substituição da mão-de-obra pelas ferramentas que a IA produziram. Até mesmo a introdução de leitores de código de barras nos supermercados já foi responsável por perdas de empregos, porém, poucas demissões reais ocorreram devido à alta rotatividade na indústria. Em contrapartida, várias tarefas executadas pelas técnicas e ferramentas de IA são viáveis somente se executados de forma automatizada. De fato, o trabalho humano, feito de forma manual, inviabilizaria as transações hoje executadas pela IA por adicionar um custo inaceitável a elas.

Há pouca atenção do poder público no sentido de preparar a população para esta nova era digital. As ações do governo brasileiro, durante anos, têm se limitado a promover a autonomia das famílias inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais e beneficiárias do Programa Bolsa Família por meio de Programas como PRONATEC e PROGREDIR, cujas atuações estão focadas no sentido de ajudar na inserção ou reinserção do cidadão no mercado de trabalho.

O programa se limita a auxiliar o cidadão no preparo do próprio currículo, no incentivo ao microempreendedoríssimo, na oferta de cursos gratuitos de qualificação e uma modesta inclusão digital. Os programas sociais implementados pelo governo federal têm seus valores, mas as ações governamentais precisam ir além disso. É possível perceber uma superficialidade nas ações governamentais, uma vez que não há projetos descrevendo ações mais austeras e arrojadas no campo da Educação.

Ora, para o Ministério da Educação e Cultura, o principal objetivo é matricular os estudantes no ensino fundamental, médio e superior, porém sem uma política séria de inclusão digital na qual prepara os cidadãos desde o início de sua vida acadêmica para enfrentar a nova era da IA. Não é possível acreditar em uma educação inclusiva séria nesta nova era digital sem um programa que desenvolve, desde a educação fundamental, a programação e a robótica.

Não obstante, poucos institutos já oferecerem uma introdução à computação e aos sistemas inteligentes, porém essa não é a realidade da maioria. A programação de computadores, robótica e outros temas atuais relacionados à Inteligência Artificial deveriam ser tratados como o inglês, por exemplo, já que não deixa de ser uma linguagem nova para a sociedade em geral. Apesar de ser intuitivo para essa geração de crianças e adolescentes, há a necessidade do aprofundamento dos conhecimentos de forma séria, principalmente para a população mais carente.

Há um princípio da ecologia e das sociedades que diz que, para sobreviver, é necessário aprender à velocidade em que o ambiente muda. Claro que, para aplicarmos esta lei, é necessário saber o que está mudando. Será que há clareza no que realmente está mudando na Era Digital ou as ações governamentais, na área da educação, estão caminhando de forma cega?

Os investimentos públicos na educação de base têm sido objeto de regulação formal em todos os países, independentemente de seu estágio de desenvolvimento social ou econômico, pois praticamente todas as nações asseguram, em suas respectivas, constituições educação gratuita e obrigatória para o cidadão em torno de oito anos consecutivos. Porém, a educação básica não é suficiente para garantir a empregabilidade e devem ser ampliadas com educação continuada eficiente.

É possível notar que as ações governamentais em relação à educação na era digital e seu impacto na vida da sociedade ainda não são prioridades para os gestores.

O governo não deve ficar apenas na condição de observador da transição do regime pré-digital para o regime digital, pois as consequências para a empregabilidade são impactantes e se faz necessário um plano de ação, por meio da educação, que realmente inclua o cidadão neste contexto.

O digital é, em larga medida, responsável por essa mudança, mas as respostas ao desafio não estão em aprender ou ensinar o digital. Estão em desenvolver as competências da futura geração para esse mundo de transformação, preparando-os culturalmente para que possam construir a sua autonomia e contribuir para que o mundo seja melhor.

Ainda há muito o que evoluir nesta área, ficando grandes lacunas a serem respondidas como: quais as melhores ações regulatórias do governo para garantir a educação e inclusão da sociedade na era digital? Como amenizar o impacto para a sociedade no que tange a empregabilidade? Quais são os impactos já causados pela IA? O que é possível afirmar é que não é admissível esperar o problema emergir de forma mais grave para depois serem feitos estudos para amenizar o problema.

Não possuímos respostas definitivas para os questionamentos tratados, porém entendemos que é importante compartilhar estas reflexões, por entendermos que se trata de um assunto de alta relevância e pauta para significativas discussões.

Ana Cláudia Rossetto Silva - Mestre em Ciências Contábeis pela Pontifícia Universidade Católica/SP. Doutoranda em Direito pela Universidade de Marília. Coordenadora dos Cursos de Ciências Contábeis e Administração da Universidade de Marília.

Cássio Faria da Silva - Doutorando em Ciência da Computação pela Universidade Federal de São Carlos, UFSCar. Mestre em Administração e Gestão de Negócios pela Faculdade de Educação e Ciências Administrativas de Vilhena. Graduado em Ciência da Computação pela Universidade de Marília. Professor da Rede Gonzaga de Ensino Superior, REGES.

 

 


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Coluna destinada a promover a comunicação da universidade com a sociedade e para a divulgação das atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão da Universidade de Marília.

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