Colunista | Viviane Gonçalves

Giro Marília -Em dias de sol nuvens cinzas também aparecem.

Em dias de sol nuvens cinzas também aparecem.

O sol, por vezes, é coberto e o tempo pode mudar rapidamente.

Um tudo bem nem sempre é uma afirmação de que a vida está supimpa, mas pode ser a tentativa de sair à francesa de certas verdades.

É um saco ter que explicar para o outro que você não está satisfeito, deveria, mas não está.

Ou que está de saco cheio da vida como ela tem se apresentado, que a vontade é fugir.

Mas para onde? Assim o poeta perguntou a José e nós continuamos nos perguntando, para onde?

Um sorriso pode esconder tristezas, creia-me, esconde.

Quando vem quase como um pedido de socorro, uma ferida, uma dor lancinante.

Nem sempre as dores são escancaradas.

Pessoas doentes de tristeza podem fazer rir, divertir, são interessantes, são agradáveis.

Evitam falar de suas dores porque vocês sabem, né, ninguém gosta de gente triste e resmungona, baixo astral.

Aprendi isso há uns 5 anos atrás quando adoeci. As pessoas se incomodavam em ficar perto, algumas por não saber o que dizer e outras porque me consideravam chata, pessimista, reclamava demais.

Deixei de ser interessante. Ali aprendi uma dura verdade, ou você é seu amigo ou não terá amigo nenhum.

Não estou dizendo que as pessoas não gostam umas das outras, nem se preocupam. Elas tem vida além da nossa, precisam vencer seus próprios monstros, assim como nós.

Então essa amizade com o ser que você convive 24 horas ininterruptamente precisa prevalecer nos dias de alma nublada.

E essa pandemia tem nos levado a uma vontade que já prevalecia e que agora ganhou força, a vontade de nos isolarmos de nós mesmos.

Como se isolar se já estamos isolados? Como fugir de nossa presença se, durante uma pandemia, é ela a companhia constante?

Séries, filmes, exercícios, lives, livros. O que não foi testado e introduzido nesse período a fim de fugirmos da loucura que, vez ou outra, passa e dá uma piscada num flerte ininterrupto.

Pior que isso é perceber que nós somos os privilegiados por estarmos vivos e, muitos de nós, não conhecemos ninguém que ficou doente ou morreu.

A minha terapeuta utilizou o termo Síndrome do Isolamento, nem sabia que essa nova síndrome tinha aparecido, desconfiava, mas tive a certeza quando ela me falou.

Estamos vivendo a Síndrome do isolamento. Como você tem vivido a sua? Nuvens tem atravessado o seu céu constantemente? Vendavais, ciclones tem visitado teu espírito vez ou outra? A vontade de fugir é grande?

Pode ser que não estejamos no mesmo barco. Mas o mar é o mesmo.

Alguns cairão no mar e se afogarão, outros conseguirão nadar de volta ao barco, tantos enjoarão com o balanço do mar, outros enxergarão tudo como uma aventura.

Há dias de mar calmo, há dias de mar bravio. Há dias nublados e há dias que o sol aparece.

Nuvens cinzas  também aparecem em dias ensolarados.

O sol  também aparece em dias nublados.

E nós só apreciamos o sol mesmo sabendo que só com as nuvens podemos encontrar bichinhos no céu.

Só quando as nuvens cobrem o sol é que podemos olhar para ele.


Giro Marília -Viviane Gonçalves
Viviane Gonçalves
Cientista social formada pela Unesp- Marília, uma curiosa nos estudos que se referem às mulheres, adora literatura, poesias e filmes. Acredita que Adélia Prado tinha razão, mulher é mesmo desdobrável.

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