Colunista | Viviane Gonçalves

Giro Marília -Eu sinto muito.

Eu sinto muito!

Já sentia antes disso tudo começar.

Sabe comé, defeito de fábrica. Alguns são passíveis de correção. Esse não. Aliás, ele vem ganhando dimensões maiores com o envelhecimento.

Quando menina, sentia muito  ao ver meu pai alcoólatra cambaleando na periferia de São Paulo, entre ruas íngremes que, muitas vezes dava a sensação que teríamos que subir utilizando tanto membros inferiores quanto superiores. E o medo da iminente queda do meu progenitor,  no receio que ele se machucasse.

Lá pelos oito anos, ao ver minha mãe sair  para trabalhar às quatro horas da manhã e só retornar às oito, recordo-me de seus cuidados ao deixar uma menina de 8 anos e outra de 7 sozinhas em casa. A proibição de não poder cozinhar feijão, nos trancávamos, assistíamos desenho e sentíamos muito.

Todas às vezes que ela chegava com um x -salada amassado, não tinha coragem de comer e deixar suas filhas somente com o arroz, feijão e a carne de segunda. Abria mão de seu jantar.  Nós sentíamos muito.

Quando fomos, minha irmã e eu, conhecer o trabalho da minha mãe e seu patrão a humilhou na nossa frente.

Recordo que nesse dia voltamos para casa num silêncio que podia ser ouvido por todos os filhos abandonados. Nós sentimos muito.

Sentir muito tem me acompanhado faz um tempo, eu que não sou boba, monto bolhas, estratégias para não sentir tanto.

A terapeuta disse que é em vão, eu vou sentir muito.

Tem razão, protejo- me  dos noticiários, das discussões que, vez ou outra, permeiam a internet.

Saio de carro, no semáforo, está lá um homem com seus andrajos a solicitar uma ajudinha moça para comprar algo para comer.

Outros, mais sinceros, é para tomar minha pinguinha, moça.

Ao dirigir até o trabalho cruzo com uma senhora de uns setenta anos, empurrando seu carro de recicláveis, parece pesado, ela parece cansada.

Só consigo sentir muito.

Não sei como existem pessoas que não sentem muito.

Me ensinaram assim ou é castigo divino.

É doloroso, misto de impotência, com injustiça, dá-lhe uma pitada de miséria, de má distribuição de renda.

Não  dá para fazer outra coisa do que sentir, e muito.

Não sei se advém do fato de conhecer o outro lado da ponte, tal qual cantou Mano Brown, e  identificar nos olhos  do outro um pouco de mim.

O sentir tem me consumido.

Segunda, acordei sentindo muito, Aldir Blanc, um dos nossos maiores compositores, nos deixou.

A tristeza já tinha feito morada e veio o adeus de Flávio Migliaccio.

Eles sentiam muito, eles sentiram muito.

E Marias e Clarices voltaram a chorar.


Giro Marília -Viviane Gonçalves
Viviane Gonçalves
Cientista social formada pela Unesp- Marília, uma curiosa nos estudos que se referem às mulheres, adora literatura, poesias e filmes. Acredita que Adélia Prado tinha razão, mulher é mesmo desdobrável.

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