Colunista | Viviane Gonçalves

Giro Marília -Migalhas.

Olhei o seu contato, procurando saber se estava online, coloquei o celular no chão, ao lado da cama e fiquei ali observando seu nome por trinta segundos, o tempo que coloquei para que a luz do celular apagasse, nada, você não estava online.

Besteira a minha, quantas vezes te vejo online e não muda nada, silêncio do outro lado.

O que tenho esperado? Não sei. Talvez o dia em que não fique olhando teu nome esperando que ao lado da sua foto apareça “digitando...” ou que mesmo que apareça já não faça diferença para mim.

Tenho buscado incessantemente remédios para curar essa dor de amor, ocupado meu tempo com leituras, estudo, malhado. Em meio às leituras, lembro e sinto uma vontade de enviar aquela mensagem dizendo, “ acabei de ler esse poema e pensei em você” ou “ esse texto é exatamente o que sinto em relação a ti”.

É um inferno querer curar-se de um sentimento que abraça tão gostoso o coração, muitas pessoas me falam que é apenas apego, que você não vale à pena, que eu deveria partir para outra. Reconheço que talvez não valha mesmo, sabia desde sempre o que me machucava e continuava fazendo.

A possibilidade maior é que nem me amasse mesmo e que esteja perdido com a sua história de vida e seus traumas, e não sabendo lidar com eles passe como um trator em cima de todo mundo que te ame.

Mas a tua forma de amar, ou não, não tem correlação com o amor que eu consigo dar. Nunca foi apego, conheço alguns dos teus defeitos e mesmo assim continuo te amando. Percebo tuas fragilidades e mesmo assim continuo olhando para ti com carinho.

Não sinto vontade de voltar para uma relação que me fazia mais mal do que bem, onde as lágrimas eram mais densas do que os sorrisos, as mentiras, ou omissões como você dizia, prevaleciam sobre as verdades e respeito que uma relação deve ter.

Não, não considero você a pessoa certa, nem mesmo acredito que ela exista, mas nunca vi em você disposição em fazer dá certo.

Nas redes sociais há inúmeros textos com conselhos práticos de como esquecer um amor, tentei seguir todos eles, que besteira, como a Ana Carolina, quanto mais eu fujo me aproximo mais.

Ganhará um prêmio mundial aquele que conseguir explicar com exatidão o que é amor assim como aquele que inventar um antídoto contra esse sentimento poderoso.

N
esse mundo pós-moderno, cheio das tecnologias, nem sofrer por amor, de forma digna, conseguimos mais.

S
entir seu cheiro, seu jeito particular de contar algo ou de rir de uma piada sem graça.

O final te diz que um universo inteiro foi perdido, que as possibilidades de vivência de outro ser humano, que eram tão peculiares e interessantes, foram embora.

Daí, meu amigo, não adianta olhar o whats, instagram, procurar se a pessoa está online ou não, se visualizou teu stories. Nenhuma rede social, por mais moderna, é capaz de trazer tudo que aquela pessoa foi para você.

O amor continua aí e, muitas vezes, a tecnologia só tripudia em cima da sua dor.  É hora de ler um livro, assistir um filme ou dar uma volta, tem coisas que só à moda antiga para lidar bem.

Se ainda assim, a dor continuar persistindo, siga o conselho do Chico Buarque, bata o portão, leve a carteira de identidade e vá com a leve impressão de que já vai tarde.

Ou faça a Nina Simone, levante da mesa quando o amor não está sendo mais servido.

Talvez meu conselho funcione para você, quanto a mim, continuo olhando todas as noites o nome dele e procurando vestígios de contato, um online tem me preenchido, que triste que são as migalhas do amor.

Como diz o versículo bíblico, os cães também comem das migalhas que caem da mesa de seus senhores ou como escreveu Camões, amor é querer estar preso por vontade.

É por vontade...


Giro Marília -Viviane Gonçalves
Viviane Gonçalves
Cientista social formada pela Unesp- Marília, uma curiosa nos estudos que se referem às mulheres, adora literatura, poesias e filmes. Acredita que Adélia Prado tinha razão, mulher é mesmo desdobrável.

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