Colunista | Viviane Gonçalves

Giro Marília -Não diga dessa água nunca beberei.

Olha você aí.

Sim, você mesmo!

Não adianta olhar para o lado, fazer a egípcia. É você mesmo.

Lembra quando você terminou a relação? Disse a si mesmo que não cairia de novo, que não se deixaria levar, que agora seria tudo diferente?

Lembra que você colocou cronologia para seu coração?

Você disse " vou demorar 1 ano, 2 dias, 12 horas, 53 minutos e 40 segundos para me apaixonar."

O que você está fazendo agora?  Sim, nesse exato momento. O que está fazendo agora?

Está olhando para o celular com cara de bobo, rindo das mensagens trocadas, olhando a foto da criatura e pensando como pode ter um sorriso tão bonito, um olhar tão doce.

Espera mensagens o dia todo, o celular apita e você logo vai ver a mensagem. Quer ficar o dia todo trocando mensagens.

Quer beijar, abraçar, sentir o cheiro, ver como o olho do outro fecha quando ri.

O formato das unhas, como são seus pés, se seu cabelo é liso ou ondulado.

Tenho uma notícia para te dá: você falhou miseravelmente.

As borboletas voltaram de novo. Não, não adiantou dizer não.

Colocar tempo para o que viria a sentir ou não.

Pensou que podia controlar o tempo? O amor, o coração? Errou.

Você está apaixonada novamente. Ele veio te visitar novamente. Encontrou o quentinho do seu coração. Abraçou quem estava desarmado.

Porque amor, meus queridos, não entra em corações combativos, ele vem ao encontro de quem se desarma.

É chegar perto de um precipício. Não adianta ter medo ou inventar desculpas, ele se instalou.

Como disse Stendhal, o amor é uma bela flor à beira de um precipício. É necessário ter muita coragem para ir colher.

Coragem, é a segunda palavra para quem já foi destroçado por um amor que não foi correspondido.

Vários sentimentos vêm à tona nos fazendo retornar em todas as dores já vivenciadas, tentando nos convencer que não vale à pena viver de novo.

Daí, vem Shakespeare e diz que barreiras de pedra não podem deter o amor.

Do mesmo jeito que você teve coragem de abrir mão de um amor que lhe foi caro. Você precisa ter coragem para abrir o coração para o amor que está chegando.

Ele está usando outras roupagens, é mais gordo, mais magro, tem tatuagem, não tem nenhuma, ele é negro, oriental.

Não importa a roupagem, ele está te visitando.

Tempo, suas dores antigas, sua falta de vontade. Que pretensão a sua achar que pode conter uma tempestade. Nada pode conter o amor.

Nem sua frase batida e clichê " dessa água não beberei".

Você não está só bebendo, mas tomando banho, hidratando o cabelo, fazendo um suco e ainda preparando uma sopa.

E se não fizer isso está sendo muito bobo. Bobeira é não viver um amor com medo das histórias passadas.

Bobeira é não viver um amor, bobeira é morrer desidratado porque bebeu uma água de procedência duvidosa anteriormente. E quem não bebe água, morre.

Eu bebo dessa água e se preciso me afogo. Antes morrer de amor do que de medo.


Giro Marília -Viviane Gonçalves
Viviane Gonçalves
Cientista social formada pela Unesp- Marília, uma curiosa nos estudos que se referem às mulheres, adora literatura, poesias e filmes. Acredita que Adélia Prado tinha razão, mulher é mesmo desdobrável.

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