Colunista | Viviane Gonçalves

Giro Marília -O falo de Michele Morrone.

Michele Morrone, ator italiano que ficou conhecido por sua participação no filme 365 DNI, apareceu para delírio quase coletivo da mulherada.

Houve inúmeras discussões acerca do filme, coisa que, aqui, não faremos.

Sobre o filme, a única análise interessante, tirando o ator, que, sem sombra de dúvidas é de uma beleza inquestionável, é que, de forma geral, as mulheres gostaram.

Até alguns dias atrás, considerava que isso teria ocorrido por conta do ator, mas, hoje, em uma discussão em uma rede social, tive a possibilidade de ver o filme sob outra perspectiva.

O filme encantou os olhares femininos porque descentralizou a cena do sexo da figura feminina e buscou mostrar a masculina. Seu corpo, seu rosto, trejeitos, seu desejo.

Mas estamos falando de atores, filmes. Sim, e o filme pornô visto diariamente é o quê?

E lá a figura feminina é mostrada de tal forma, que por pouco não conseguimos ver o pulmão da atriz.

Todo o trabalho é para mostrar o corpo feminino, seu pretenso desejo, caras e bocas.

365 DNI fez exatamente o contrário: o corpo do ator foi explorado, suas caras e bocas foram mostradas. A mulherada quase aplaudiu de pé as cenas que são mais picantes.

A descoberta que fiz assistindo ao filme e publicando sobre ele é que os homens se assustam com o desejo que um corpo masculino pode trazer.

Foram ensinados a ser performáticos na cama e a não se entregar de forma real.

Tampouco gesticular ou mostrar desejo com o rosto lhes é permitido.

Triste geração do pornô. Geração que considera demorar para ejacular um mérito, quando, na maioria das vezes, a mulher está considerando insuportável.

Geração que acha importante fazer acrobacias num quarto, pois, caso contrário, não fez sexo certo.

Ninguém tem tanta flexibilidade para tanto. O kamasutra precisa de um pouco mais de aulas de yoga.

Nada é real, nem o desejo. A impressão é de que as pessoas estão levando a masturbação para dentro dos quartos e utilizando como substituto do sexo. Só que nesse caso é masturbação a dois.

Cada um se encarrega do seu próprio prazer. Eu estou me lixando se ela está odiando o sexo, vou continuar fazendo e só vou parar quando eu me satisfizer.

Ele tem obrigação de ter a genitália assim ou assado, de ficar a noite toda.

Sexo não é competição para ver quem chega primeiro. O interessante é que os dois cheguem juntos. Ninguém está transando com um inimigo. Mesmo que seja casual, é alguém que está ali com o mesmo interesse que você.

Vamos parar de enfeitar demais as coisas? De sexo todo mundo, ou quase todo mundo, gosta. Entregar-se no sexo não tem a ver com o tipo de genitália que você tem. Tem a ver com desejo e vontade de viver o momento.

Mulheres, tanto quanto homens, gostam de sexo. Vamos acabar com atuações desastrosas na cama. Ninguém aqui é uma atriz para encenar.

Nos filmes, os atores sabem que seus colegas estão encenando.

Na vida real, a pessoa que está transando com você não foi comunicada de que precisava encenar desejo. Ela está ali apenas para fazer sexo.

Não temos nenhum Michele Morrone na vida real e, mesmo com Michele, mão com cuspe não é legal e cuspe continua sendo cuspe.

Glândulas de Bartholin possuem uma função. Trabalhe para não ficar desidratado tirando cuspe da boca.

Aceite que o corpo feminino tem um tempo diferente do seu e pare de pensar que seu pênis é o centro do mundo.

Nem o do Michele Morrone é.


Giro Marília -Viviane Gonçalves
Viviane Gonçalves
Cientista social formada pela Unesp- Marília, uma curiosa nos estudos que se referem às mulheres, adora literatura, poesias e filmes. Acredita que Adélia Prado tinha razão, mulher é mesmo desdobrável.

Matérias anteriores deste(a) colunista >