Colunista | Viviane Gonçalves

Giro Marília -O óbvio também precisa ser dito.

Insistimos constantemente na ideia de que o outro sabe o que pensamos, sentimos, intencionamos.

Como se as pessoas possuíssem uma bola de cristal que ao menor franzir de cenho já pudessem dá o veredicto do que o outro pensou ou sentiu.

Já parou para pensar que além de não saber o que se passa contigo o outro não tem a menor obrigação de saber?

Inventaram, já faz um longo tempo, um recurso chamado diálogo, conversa, bate papo, troca de ideia. Recurso esse, que se bem utilizado, pode resolver inúmeros mal entendidos.

Dará nome aos bois, raiva o que é raiva, tristeza o que é tristeza e por aí vai. Antoine de Saint-Exupéry disse que a linguagem é uma fonte de mal entendidos.

E deveras é, se deixarmos nas mãos do outro a obrigação da leitura de todo um aparelho de cognição que pressupõe o uso da leitura de linguagem corporal, trejeitos, manias.

Pior, fulano sabe que eu não agiria assim. Será mesmo? Você não consegue saber muito sobre si mesmo por que espera que o outro consiga pressupor o que se passa aí nessa caixola?

O óbvio também precisa ser dito. Porque o óbvio, às vezes, só é para você. A outra pessoa enxerga o mundo segundo uma lente de contato que foi oferecida a ela desde pequenininha. Há um histórico familiar, social, cultural, econômico que faz com que ela enxergue o mundo de acordo com essa lente de contato.

Diga, de forma educada, mas diga. Fale aquilo que parece claro para você mas que para o outro é um emaranhado de informações desprovida de sentido.

Nada é tão óbvio, tão lógico que não precise ser manifesto.

E uma conversa pode resolver muita coisa para o locutor e seu interlocutor.

E aqui não fazemos referência somente ao ato de resolver conflitos práticos.

Conflitos internos, traumas, sofrimentos, precisam ser manifestos, se não o são por palavras, utilizarão todo nosso corpo como manifesto, haja vista as doenças psicossomáticas.

Ela sabe o quanto eu a amo, para de pressupor, diga. Ele sabe que eu não gosto de determinadas atitudes, fale.

Quando se esgotam as possibilidades do diálogo, da fala, partimos para outras atitudes. Mas enquanto existir a possibilidade de uma boa conversa, não abra mão dela.

O óbvio também precisa ser dito e, muitas vezes, tem que ser.


Giro Marília -Viviane Gonçalves
Viviane Gonçalves
Cientista social formada pela Unesp- Marília, uma curiosa nos estudos que se referem às mulheres, adora literatura, poesias e filmes. Acredita que Adélia Prado tinha razão, mulher é mesmo desdobrável.

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